As leituras de hoje estão interligadas por uma alusão quase imperceptível: enquanto Jó se enche de sofrimento até o
anoitecer (1ª leitura), Jesus cura o sofrimento até o anoitecer (evangelho).
O conjunto do evangelho mostra Jesus empenhando-se, sem se poupar, para
curar os enfermos de Cafarnaum. E no dia seguinte, o poder de Deus, que
ele sente agir em si, o impele para outras cidades – sem se deixar
“privatizar” pelo povo de Cafarnaum. A paixão de Jesus é deixar efluir
de si o poder benfazejo de Deus. Ele não pensa em si mesmo, não se
protege, não se poupa. Ele assume, sem limites, o sofrimento do povo.
Ele tem consciência de ser isso a sua missão: “Foi para isso que eu vim”. Ele não pode recusar a Deus esse serviço.
Nosso povo, muitas vezes, vê nas doenças e no sofrimento um castigo
de Deus. Mas quando o enviado de Deus mesmo se esgota em aliviar as
dores do povo, como essas doenças poderiam ser um castigo de Deus? Não
serão sinal de outra coisa? Há muito sofrimento que não é castigo de
quem sofre. Que é simplesmente condição humana, condição da criatura,
porém, também ocasião para Deus manifestar seu amor ao ser humano. O
evangelista João dirá que a doença é uma oportunidade para Deus manifestar sua glória (Jô 9,3; 11,4).
Por mais que o homem consiga dominar os problemas de saúde, não
consegue excluir o sofrimento, pois esse tem outra fonte. No mais
perfeito dos mundos – como o descreve um romance dos anos 1930 – no
mundo sem doenças, os humanos sofrem pelo desamor, pela mútua
manipulação, pela desconfiança, pela insignificância, pelo mal que o
ser humano causa ao seu semelhante. Por isso, o relato bíblico do
pecado atribui o sofrimento fundamentalmente ao pecado; porém, não ao
pecado individual – o livro de Jó contesta com força tal atribuição (e
também Jo 9,3, cf. acima) – mas ao pecado instalado na humanidade, o
pecado das origens (Gn 3,15-19).
Que Jesus apaixonadamente se entrega à cura de todos os males,
inclusive em outras cidades, é uma manifestação do Espírito de Deus,
que está sobre Jesus, e que renova o mundo (cf. Sl 104 [103], 30). O
evangelista Mateus (Mt 8,17) compreendeu isso muito bem, quando
acrescentou ao texto de Mc 1,34 a citação de Is 53,4 (do Servo
Sofredor): “Ele assumiu nossas dores e carregou nossas enfermidades”.
Ora, se é pelo pecado do mundo que as dores se transformaram num mal
que oprime a alma, logo mais Jesus terá de se revelar como aquele que
perdoa o pecado (cf. 7º domingo). Também se hoje acontecem curas e
outros sinais do amor apaixonado de Deus que se manifesta em Jesus
Cristo, é preciso que reconheçamos nisso os sinais do Reino que Jesus
vem trazer presente.
Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
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