No domingo anterior vimos a figura de João Batista, como a apresenta o evangelho de Mc. Hoje, no evangelho, podemos ver como o evangelista João interpreta a figura do Batista, não mais caracterizada pelo tema da conversão, mas pelo do testemunho. No evangelho de Mc, centrado sobre Jesus que proclama a chegada do Reino de Deus, o Batista é o profeta escatológico, o novo Elias, que deve preparar os corações para que, mediante a conversão, participem do Reino.
A visão do evangelho de João é um tanto diferente. O conceito do “Reino” falta praticamente em Jo (é substituído pelo de “vida eterna”). Jo evita a historização do Reino; o Reino (de Jesus) não é deste mundo (Jo 18,36). Deus não se manifesta naquilo que o mundo chama de “reino”, mas em Jesus mesmo (14,9). Escrevendo num outro contexto, Jo evita os tradicionais conceitos
apocalípticos: o reino, o profeta do Fim etc. Por isso, em Jo 1,19-21, o Batista recusa os traços de sabor apocalíptico, por exemplo, do novo Elias, que os outros evangelhos lhe atribuem. Ele não é um personagem apocalíptico, ele é a “voz de quem grita no deserto” (cf. Is 40,3; Jo 1,22-23), uma testemunha (lo 1,6-8.19.34; 3,26; 5,33).
Ele não é a luz do mundo, que é Jesus (1,6-8 8,12; 9,5), mas apenas uma lâmpada provisória (5,35). Seu batismo não é propriamente uma atuação escatológica, mas um sinal que aponta para o Enviado de Deus, o qual está, desconhecido, no meio do mundo (1,26). E, de fato, na continuação do texto, o Batista vai mostrar a seus discípulos Jesus como o Cordeiro de Deus (1,29.36, cf. 3,30).
A Luz que o Batista aponta está no mundo, mas o mundo não a quer conhecer (1,5.9-11). A parcela incrédula do mundo gosta de ficar nas trevas (3,19-20), cega (9,39-41). Se, portanto, o Batista aponta essa Luz como estando presente, desconhecida, no meio de nós (1,26), ele não apenas quer dizer que (ainda) não tivemos a chance de descobri-la, mas sugere que é preciso querer descobri-la. Para poder ver é preciso querer ver. Assim, o evangelho de hoje desperta em nós a necessidade de uma decisão pelas palavras do Batista: “No meio de vós está quem vós não conheceis”, somos convidados a querer descobri-lo, dilatando nosso coração em alegria.
A liturgia de hoje está banhada na alegria (é o antigo domingo “Gaudete”). Alegria do antigo povo de Israel, que, de volta do exílio, mas ainda não bem estabelecido, espera dias melhores para breve; pois o profeta lhe é enviado com uma missão particular do Senhor (isto significa sua unção, Is 61,1) anunciar a boa-nova da perfeita restauração da paz e justiça, ao povo oprimido: os pobres, os cativos, os sofridos; proclamar um ano de graça, isto é, um ano sabático ou um jubileu, instituições de Israel para restabelecer, na sociedade, chances iguais para cada um (devolução das terras hipotecadas, libertação dos escravos etc.). A perspectiva de tal restauração da harmonia (não temos conhecimento de que ela foi jamais realizada) provoca no profeta um grito de júbilo, como de um noivo ou noiva preparando-se para as núpcias. A justiça de Deus (a ordem sonhada por Deus) tornar-se-á coisa tão natural e cotidiana, tão vital e promissora quanto o germinar das frutas da terra. A liturgia completa este “Magnificat do Antigo Testamento” (Is 61,10-11; 1ª leitura) com o do N.T., que é o canto responsorial de hoje. Surge, destes textos, a imagem do Deus Libertador, que se dirige, em primeiro lugar, aos que mais esperam: os pobres e humildes. Nestes vive o desejo que permite reconhecer as maravilhas do Senhor.
Também na 2ª leitura vibra a alegria, por uma razão mais profunda ainda: o que Deus quis, afinal, com Jesus Cristo e sua obra, é que sempre possamos estar alegres e agradecer-lhe (1Ts 5,16). Ver-nos felizes, eis o desejo de Deus, ao qual nós respondemos por nosso desejo de vê-lo. Por isso, devemos deixar-nos animar sem cessar por seu Espírito. Na Igreja de Paulo, este Espírito era visível nos carismas. “Não apagar o Espírito” não significa, apenas, guardar vivo o fogo interior, mas também respeitar e incentivar a ação visível do Espírito na atuação carismática dos fiéis. Daí: não desprezar as profecias; antes, ponderar a avaliar tudo e ficar com aquilo que serve. E conservar sua integridade, sua “inteireza”, pois tudo em nós deve ser santo quando vier o Senhor. Ele, por sua parte, não falhará; ele é fiel.
A oração do dia pede que possamos chegar às alegrias (eternas) da salvação e também celebrá-las, desde já, na liturgia. Ora, a liturgia é o momento de moldar a espiritualidade de nossa vida cotidiana. A alegria que ela celebra não é um parêntese em nossa vida, e sim, a manifestação do tom fundamental, o “baixo contínuo” de nossa vida. Articulando em hino e louvor o que vive no fundo de nosso coração e de nossa comunidade, a liturgia nos chama a uma autêntica vivência daquilo que ela articula. Se não formos capazes de participar do “Gaudete” de hoje, esticando nosso pescoço no alegre desejo de ver Aquele que está no meio de nós, alguma coisa não está certa em nós.
Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
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