Hoje em dia, há muitos que bancam o profeta. Mas ser profeta não é fácil, e tampouco seguir umprofeta. Jeremias descreve sua
vida de profeta como uma sedução (1ª leitura). “Entrei numa fria”, dir-se-ia hoje. Desde o começo, foi um tanto recalcitrante (Jr 1,6).
Até quis fazer greve (Jr 20,9), mas a voz de Deus era como um fogo
ardente no seu peito. Não conseguia reprimi-la... Tal é a sorte do profeta. Quando ele tem uma mensagem desagradável e sempre
de novo deve ferir os ouvidos, Deus não o deixa em paz.
Também Jesus sabia que este era seu caminho (evangelho). Sabia que sua visão de Deus e do mundo não concordava com aquilo que o povo, sobretudo os chefes, esperavam. Pois é grande a diferença entre uma religião que serve para comprar o céu e uma fé que incansavelmente procura a vontade de Deus (seu incansável amor)! Quem não se quer converter da falsa segurança não pode tolerar a presença do incômodo profeta de Nazaré.
Simão Pedro, o mesmo que, pouco antes, proclamara a fé em Jesus como Messias e, por isso, se tornou o responsável dos seus irmãos, ainda não entendia a sorte do profeta. Pensava ainda em termos de sucesso, não em termos de cruz. Afinal, é agradável termos igrejas cheias, obras funcionando bem, entrevistas na TV etc. Mas quem acha isso mais importante do que a fidelidade à Palavra de Deus - mensagem amarga, que deve ser proclamada até o fim - não é digno de Jesus Cristo. É um adversário dele (o que, em hebraico, se chama “Satanás”). Para seguir Jesus, é preciso sentir o que Deus sente e não o que os homens acham...
Então Jesus fala do seguimento. Seguir a Jesus é renunciar a si mesmo, isto é, aos próprios conceitos feitos e acabados. É assumir sua cruz, a condenação humana, a degradação total... Diante da exigência da missão profética, querer salvar-se é perder-se (deixar de se realizar na missão de Deus). E perder-se (aos olhos dos homens) é realizar-se como enviado, como “filho” de Deus. A fidelidade à mensagem de Deus nos situa diante de uma escolha: garantir o sucesso humano (ganhar o mundo todo) ou ganhar “sua alma”, isto é, o cerne interior da existência. Devemos escolher entre uma realização superficial e a realização radical de nossa vida. Ora, que podemos dar em troca dessa realização radical, aquela que será sancionada pelo próprio Jesus, a partir de sua glória, na base daquilo que tivermos praticado?(24)
Há quem entenda a predição da Paixão de Jesus (evangelho) como sinal de que ele sofreu por querê-lo e o quis porque tinha que “pagar com seu sangue” em nosso lugar. Tal conceito é simplório. Certamente, Jesus sofreu porque o quis; porém, não porque gostava de sofrer (não era doente), mas porque a fidelidade à palavra do Pai o levou a isso. Se os homens se tivessem convertido à sua palavra, ele não teria sofrido (cf. Mt 26,39-42 e par.)! Mas ele teve que enfrentar até o fim o orgulho congênito do ser humano.
A 2ª leitura, início das exortações finais de Rm (muito ricas, por sinal), recebe uma luz particular do evangelho de hoje: oferecer-se como hóstia viva a Deus não é desprezar-se, mas é “culto razoável”, cultivo coerente e conseqüente da vontade de Deus: sermos plenamente seus: seu povo, seus filhos, seus profetas, não conformando-nos a este mundo, mas procurando conformidade com a vontade de Deus. É uma bela exortação para encenar a liturgia de hoje. Chamamos ainda atenção para a mensagem das orações: Deus alimenta, com seu amor (sacramentado na Eucaristia) o que é bom em nós, nossa doação, nosso amor (oração do dia, oração final).
(24).Este evangelho não apregoa o desprezo da vida (corporal) em favor de um espiritualismo mórbido (“salvar a alma”). Alma, na linguagem bíblica, é sinônimo de vida total. Designa o princípio e o cerne da vida. Salvar sua alma é realizar sua vida, e realizá-la autenticamente. Ora, quem descobre a visão de Deus sobre a realidade (a estrutura sócio-econômica, a estrutura religiosa, o abuso ecológico, o esbanjamento dos bens vitais, o cinismo da guerra, a usurpação dos direitos humanos, a ludibriação da verdade - tudo o que está em desacordo com Deus) fica assombrado pela mensagem de Deus; só consegue “desfazer-se” dela proclamando-a.., e correndo o risco da rejeição. A não ser que sufoque sua própria alma no suicídio espiritual.
Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
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